Entrevista com
Luiz Claúdio
Jubilato publicada no Jornal Tribuna de Ituverava:
A arte de ensinar a escrever
Luiz Cláudio Jubilato, que desenvolveu o método
Criar de
redação, fala sobre ensino, literatura e língua
portuguesa
Entrevista com o professor Luiz Cláudio Jubilato, criador do método
global de ensino de língua portuguesa que dá sustentação
ao Curso Criar. É também proprietário do Liceu Vincent Van
Gogh.
É verdade que o povo brasileiro não gosta de ler?
Luiz Cláudio Jubilato - Infelizmente é verdade. Vivemos num país tropical em que é muito difícil alguém se sentir confortável por horas lendo um livro. Ainda mais, somos imediatistas, gostamos de divertimentos que façam bem aos olhos sem exigir muito da cabeça. Não se associa no Brasil o divertimento com o pensamento. O brasileiro se acomodou a ver tudo pronto na televisão. Entre ler um livro e vê-lo adaptado à tevê, é melhor a adaptação. A questão é histórica. É cultural. Historicamente o brasileiro passou a acreditar que ler é uma obrigação e não uma diversão. Você verá muitas vezes alguém dizer que não vai perder tempo lendo isso ou aquilo.
Como se faz para fazer com que um povo leia, já que ele não gosta?
Jubilato - Primeiro, tornar o acesso ao livro mais fácil. O livro, no Brasil, é caro se comparado a outras formas de diversão. Não há edições populares em bancas de revistas. O livro ainda é tratado como coisa para poucos e os jornais e revistas, devido ao preço, estão mais próximos das elites. Além disso, é preciso promover o escritor nacional, mostrá-lo em carne e osso. Levá-lo à tevê, falar dele como uma pessoa normal. Estimular o cidadão a ler os assuntos com os quais sente afinidade. Há uma infinidade de possibilidades. A bienal do livro em Ribeirão Preto foi um acontecimento interessante, porque levou muita gente a manusear livros. A cidade criará oitenta bibliotecas em dois anos, o que levará o livro para perto de mais pessoas.
O senhor acredita que um aluno deva começar a ler por imposição da escola?
Jubilato - Tudo o que é imposto é horrível. O problema é que não se tem outra saída, pois os vários vestibulares passaram a impor uma lista de livros que o aluno deve dissecar em três anos. A coisa veio imposta de cima para baixo e não há outra saída a não ser obrigar o aluno a ler. O melhor mesmo é fazer com que leia o que gosta, em pequenos textos, como as crônicas de Luís Fernando Veríssimo ou João Ubaldo Ribeiro. É preciso dar ao leitor iniciante textos interessantes e que lhe possibilitem ter fôlego necessário para lê-los. Não adianta você colocar para disputar a São Silvestre um sedentário com 20 quilos acima do peso. Eu duvido que se houvesse um trabalho com textos menores, dentro da realidade do leitor, se ele não acharia a leitura um ato prazeroso.
O senhor falou até agora de livros. E os jornais e revistas?
Jubilato - Na minha opinião, constrói-se um bom leitor quando esse leitor é colocado em contato com tudo o que está no mercado. Os jornais e revistas, apesar de, em alguns casos, terem textos sofríveis, têm que fazer parte do universo do aluno, do jovem, do velho. São fundamentais na formação do indivíduo tanto em relação ao senso crítico quanto em relação ao conhecimento da realidade do país em que vive. A leitura de jornais e revistas passa pelo mesmo pressuposto do livro. Um leitor iniciante não tem fôlego para dissecá-los a cada sentada, mas tem fôlego para escolher os assuntos que mais lhe interessam. É a partir do que mais interessa que gradativamente se chega a outros assuntos mais espinhosos. Uma leitura abre caminhos para outras tantas leituras porque é comum um autor citar outros autores e outras obras.
Quantos livros uma pessoa precisa ler por ano?
Jubilato - Isso depende de cada leitor. Normalmente devemos ler tantos livros quantos sentirmos prazer nisso. Não se pode ler para cumprir uma meta, deve-se ler para satisfazer um desejo. Deve-se ler para superar desafios, para ativar a imaginação, para descobrir o mundo, para se embrenhar na mente de outras pessoas, para entender as experiências pelas quais passa ou passou a humanidade, para sentir um turbilhão de emoções e sensações não explicáveis, para não passar por nenhuma dessas experiências, apenas para matar o tempo. E vai por aí.
O senhor já esteve diante um livro, folheou-o e não conseguiu lê-lo?
Jubilato - Os viciados em leitura costumam se deparar com alguns desafios difíceis de serem vencidos. Numa convenção na UNICAMP sobre leitura em 2001, perguntei ao maior leitor desse país, um velhinho chamado José Mindlim, ex-proprietário da SHARP, que possui uma das maiores bibliotecas desse país, se ele conseguiu ler e entender Ulisses , de James Joyce. Qual não foi o meu alívio quando ele disse que, como eu, leu e não entendeu nada. Esse é o meu desafio, nunca consegui passar da página 100 desse livro.
Vale à pena ficar tentando ler uma obra que ninguém entende?
Jubilato - Claro que sim. É o desafio de entrar num mundo hermético, inexpugnável, que está ali para ser decifrado como uma esfinge. Alguém conseguirá algum dia explicá-lo de forma satisfatória. Espero que seja eu ou que eu esteja vivo para participar desse processo. É a vitória da inteligência e da perseverança. Sem desafios a serem vencidos, é melhor nem sair de casa, nem levantar da cama todas as manhãs.
Para escrever bem, é preciso ler muito?
Jubilato - Nem sempre isso é uma verdade, porque quantidade não é qualidade. Depende da forma como se lê e o que se lê. Depende de como se escreve e do que se quer escrever. É fundamental haver um trinômio: ler, escrever, mas alguém especializado corrigir o que se escreve.
A receita é tão simples assim?
Jubilato - Ao contrário, é muito complexa. O corretor é o debatedor, é aquele que tem que respeitar a linha de raciocínio de quem escreve, porém precisa também ajudá-lo a construir essa linha de raciocínio. O corretor não pode ser jamais um censor, precisa ter experiência suficiente para corrigir sem interferir. Porém, o leitor, para escrever bem, tem que ser uma pessoa atenta ao que lê. Precisa ler de tudo, até aquilo que é chamado de lixo. Precisa aguçar o senso crítico com leitura de boa qualidade. Precisa se sentir desafiado a ultrapassar barreiras quando elas se colocam à sua frente. O bom escritor precisa ter tudo isso e mais alguma coisa. Precisa fugir ao senso comum, buscar novas formas de expressão verbal, estudar a língua e eliminar essa noção de certo e errado.
O senhor pode dar algumas dicas de como escrever bem?
Jubilato - São dez dicas básicas para qualquer bom texto. 1ª.) esquematizar a linha de raciocínio a ser adotada. 2ª.) evitar parágrafos muito longos. 3ª.) evitar períodos muito longos e muito curtos. 4ª.) na dúvida entre colocar ou não um acento, trocar a palavra. 5ª.) na dúvida entre colocar ou não uma palavra, trocar a palavra. 6ª.) entre colocar ou não uma vírgula, não colocá-la. 7ª.) evitar repetição de uma mesma palavra, a não ser que se pretenda enfatizar uma idéia. 8ª.) evitar o excesso de QUÊS no texto e de orações iniciadas por VERBOS NO GERÚNDIO. 9ª.) estabelecer uma tese no primeiro parágrafo que deve ser reescrita no último para que se tenha o fechamento exato do raciocínio. 10ª.) fazer um texto com os parágrafos mais ou menos do mesmo tamanho para obrigar-se a dividir melhor os diversos assuntos a serem abordados.
O senhor disse que as universidades impuseram uma lista de livros aos alunos. O senhor é contra essa lista de livros? O senhor não acha que essas listas fazem com que os alunos leiam mais?
Jubilato - Há quatros anos, participei do COLE (Congresso Internacional de Leitura), na UNICAMP, e levantei essa polêmica, porque acredito que essas listas escravizam professores e alunos. Afirmei que entre os quase mil alunos com os quais convivi em dois anos, os que leram esses livros poderiam ser contados nos dedos de uma mão. A Assembléia ficou revoltada, mas uma professora da Universidade Federal do Espírito Santo provou estatisticamente que eu estava certo. Essas listas criaram um tipo de professor que é o “dador” de livros. Não é um professor de literatura, é aquele que leu alguns resumos ou os fabricou e passou contar historinhas para os alunos. Isso sem falar nos famigerados resumos. O aluno, quando lê, só lê resumos que violentam absurdamente as obras originais, além de criar verdades absolutas sobre obras que deveriam ter interpretações abertas.
E a prova de redação? O senhor concorda com o fato de a prova de redação ser eliminatória?
Jubilato - A prova de redação tornou-se um mal necessário. Ela acabou sendo responsável pela melhora no padrão de leitura dos alunos, pois os temas são quase sempre atuais e não há como escrever bem sem estar bem informado. Melhorou também o padrão de escrita, pois é eliminatória e isso se refletiu em outras matérias, como história, geografia, geopolítica e até mesmo matemática, física e química. Não sou a favor do vestibular da forma como está estruturado, porque se tornou uma forma de “darwinismo social” que acaba psicologicamente com os jovens e as famílias e obriga os pais a terem gastos muitas vezes incompatíveis com sua realidade econômica.
Como assim?
Jubilato - O aluno de escola particular, por ter professores e material didático especializados, além de uma estrutura melhor para estudar, consegue resultados melhores que os alunos de escola pública. No entanto, a escola particular, por ter se proliferado muito e se super-especializado, os pais fazem sacrifícios para colocar os filhos nessas escolas e esse diferencial passou a não existir mais. Surgiram, então, os cursos livres que passaram a super-especializar ainda mais os alunos das escolas particulares e passaram a ser um componente fundamental na aprovação dos alunos nas universidades mais concorridas. Os pais passaram a pagar a escola particular, os cursos livres e vai saber o que vem mais por aí. Na grande maioria das vezes, a família vai além da conta.
Voltando à língua portuguesa, o senhor acredita que o projeto do deputado Aldo Rebelo de defender a língua portuguesa da invasão de palavras estrangeiras tem condições vingar?
Jubilato - A lei pode até ser bem intencionada, mas o deputado Aldo Rebelo, por ser um poeta de certa projeção, deveria saber que não se protege uma língua por decreto. A língua é fruto das experiências culturais de um povo e, se esse povo não produz cultura, apenas absorve a cultura do dominante, é natural que a língua incorpore termos vindos do dominador. Além disso, como a língua traduz a nacionalidade, esse tipo de lei pode criar um xenofobismo sem limites. É uma lei equivocada que teve repercussões em Ribeirão Preto, quando um vereador tentou imitar o ato e tornou-se objeto de chacota. Como será multado o cidadão que usar expressões como site, Web, plug... em cartazes, faixas ou out-doors?
O que o senhor acha dessa febre de Harry Porter ou o Senhor dos Anéis?
Jubilato - Essas obras são a prova viva do quanto nós somos um povo aculturado. A primeira é uma obra feita em série como se produz um carro; a segunda, já não era boa quando foi lançada nos anos 60. A qualidade literária de ambas é extremamente discutível, mas é melhor lê-las do que não ler nada. É melhor manusear um livro ruim do que não manusear livro nenhum. O que me deixa triste é que escritores brasileiros ou regionais tão bons e não se procura alavancar a obra desses autores. Na nossa região, há grandes nomes como o do secretário de meio-ambiente de Ribeirão Preto, Gilberto Abreu, que já ganhou o prêmio Guimarães Rosa, e o professor Menalton Braft, que ganhou o prêmio Jaboti, o mais importante da literatura brasileira, mas que pouca gente conhece e, se conhece, não leu.
Que conselhos o senhor daria para quem quer iniciar-se na leitura e na escrita?
Jubilato - Para começar a ler, procure os assuntos com os quais tem mais afinidades e comece pelas crônicas, os contos, as matérias jornalísticas. Para começar a escrever, deixe o seu pensamento fluir livremente no início, mesmo que as frases pareçam sem sentido. Procure alguém que possa ajudá-lo, corrigindo-o e escreve sempre. Ler como e escrever é hábito. Quanto mais se escreve, melhor se escreve. Quanto mais se lê, mais prazer se sente na leitura.
O senhor recomendaria alguns livros para essas pessoas?
Jubilato - “A Comédia da Vida Privada”, de Luís Fernando Veríssimo é um bom começo. Mas há autores como Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, José Roberto Torero, Millôr Fernandes, dentre outros...
E os clássicos, como Machado de Assis?
Jubilato - Os clássicos não são para iniciantes. É um crime contra Machado de Assis dar Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas para um garoto de terceiro colegial ler. Falta-lhe experiência lingüística, falta-lhe experiência de vida, falta-lhe sensibilidade para entender a obra. Os clássicos podem traumatizar um leitor iniciante que achará a obra chatíssima e jamais passará perto de um livro. Os clássicos são para aqueles que têm fôlego e gostam de desafios.
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