Guerra de todos

A primazia da integração, que rege o mundo pós Segunda Guerra Mundial, provocou economias e culturas intimamente relacionadas. No entanto, a análise da microesfera social permite a apreensão do contrário. A globalização forçada da era contemporânea gerou civilizações desconexas, nas quais impera a segregação social. A violência, por exemplo, presente na incidência vertiginosa de linchamentos no Brasil, caracteriza um problema decorrente dessa realidade e, portanto, não é passiva da compreensão simplista proposta por muitos veículos de comunicação.

A ação dos justiceiros, que invadiu o país de forma mais proeminente em 2014, demonstra clara desestabilização da condição cidadã. Ao dispensar a necessidade de provas para fundamentar as suspeitas e apresentar-se, majoritariamente, como a atividade de um grupo de pessoas, ela autodenomina-se carente de racionalismo. Esse comportamento foi intitulado por Adorno como irracionalidade de massa, pois subentende um evento imediato e a abstenção da responsabilidade pelos anônimos envolvidos. Tal postura torna-se evidente no episódio da zona sul do Rio, no qual um adolescente foi espancado e preso a um poste.

Os que compactuam com a prática descrita carregam a idéia falaciosa de que a autodefesa legitima-se na omissão das instituições oficiais de segurança. Essa interpretação, entretanto, distorce o entendimento das ocorrências. A comunidade brasileira é vítima de graves desconjunturas políticas, como a falta de planejamento urbano e a polícia conivente com medidas violentas, contudo o reconhecimento da cidadania do outro é intrínseca à democracia. Incentivar a “justiça com as próprias mãos” é ser complacente com um conflito horizontal e esvaziar as manifestações verticais que clamam por mudança.

Aos que criticam os justiceiros não é suficiente uma visão maniqueísta. É importante lembrar que a maioria dos acontecimentos enquadra o meio urbano, ou seja, são sintomas da segregação social imperante. A sociedade brasileira, profundamente injusta – na qual quase ¼ da população não supera o analfabetismo funcional - aliada à falta de solidariedade das metrópoles, criou um conglomerado cuja existência explica-se apenas na sobrevivência. A ausência de dignidade, apontada por Kant no imperativo categórico, gestou pessoas instáveis, guiadas pelo medo da insegurança.

O vigilantismo, que inunda o Brasil contemporâneo, é uma extensão de práticas antijudiciais, portanto não legítimas, mas inseridas em um contexto amplo de problemas sociais decorrentes da modernização desigual. A urbanização excludente regenera medidas arcaicas que revestem um modelo de vida carente de sentido. Esse cenário confere ao protagonista de atos ilegais a certeza de que participou de uma ação moralmente justa. Assim, é instaurada uma civilização primitiva, prevista por Hobbes como a “Guerra de todos contra todos”.

Marina Guitti de Souza
Criar Campinas