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Por volta de 3.000 a.C, período que compreendeu a passagem da civilização egípcia pelas margens do rio Nilo, percebe-se uma conceitualização divergente da morte advinda desses povos. Desse modo, morrer no Egito Antigo significava desprender a alma do corpo, caracterizando-se como estágio de transição para outra existência. Logo, havia toda uma preocupação com a preservação dos corpos após a morte, o que resultou no desenvolvimento de técnicas de mumificação e embalsamento, além da necessidade de se armazenar riquezas, junto ao morto, em sua tumba. Na contemporaneidade, a existência de "memoriais online" nas redes sociais, voltados para publicações e homenagens aos mortos demonstram a necessidade, ainda, presente, de se manter essas pessoas "in memoriam". Todavia essa "mumificação" hodierna pode gerar a banalização da morte, ao invés de se manter o sentido positivo de ressignificá-la.

Guy Debord, escritor francês, em sua principal obra, caracteriza a atual dinâmica humana utilizando-se da expressão "Sociedade do Espetáculo", devido ao advento de ferramentas tecnológicas como a internet e à constante necessidade do indivíduo de utilizá-las para expor sua vida e seus pensamentos a todo o momento. Logo, essa compulsão das pessoas em serem vistas e percebidas é o que transforma os espaços de homenagens a entes falecidos em um dispositivo de autopromoção e, consequentemente, resulta na banalização da morte e do sentido dado a tais memoriais online.

Sabe-se, no entanto, que o indivíduo é livre para expressar seus sentimentos e sua opinião sobre qualquer assunto, outrossim, as redes sociais permitem uma maior facilidade para que essa liberdade seja exercida. Portanto, a face positiva dos memoriais online é a oportunidade que trazem consigo de dar um novo significado ao falecimento, ademais, podem ora servir como refúgio para amigos e familiares que apresentam dificuldade em lidar coma morte ora em auxiliar pessoas distantes a prestar condolências e seu apoio. Assim, é importante ressaltar que o luto é um direito e que a internet pode ser utilizada, conscientemente, para expressá-lo.

Duas das frentes filosóficas encontradas nas obras dos principais heterônimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, é epicurismo e o estoicismo. Enquanto este prioriza a busca pelo equilíbrio, aquele que valoriza os prazeres simples e sofisticados. Dessa forma, o autor demonstra o quão necessário é a busca incessante por prazeres efêmeros ou os constantes sofrimentos do indivíduo já que tudo é insignificante diante da morte e um equilíbrio deve ser almejado. Então, os memorais online devem ser utilizados com base nessa harmonia, servindo como ferramenta de entendimento e compreensão, em detrimento da necessidade de se guardar sentimentos de tristeza e decepção perante a morte.

Por conseguinte, conclui-se que os memoriais online são extremamente positivos para se dar um ressignificado a um momento tão complicado e desconhecido como a morte. A partir deles, é formada uma corrente de apoio e homenagens que será armazenada e poderá ser acessada a qualquer momento. Entretanto, o obstáculo encontrado é o individualismo moderno que reduz essa ferramenta às meras "curtidas" ou "compartilhamentos", banalizando-a. Deste modo, manter o equilíbrio epicurista no processo de "mumificação"da memória de entes falecidos é essencial para vangloriar suas vantagens.

Ana Laura Galvão
Criar Franca