Nostalgia, reféns e mudanças

"No meu tempo a gente era mais feliz. Na minha época o mundo não era maluco desse jeito". Tais orações são comumente escutadas por jovens vindas de seus pais e avós, os quais acreditavam piamente nisso. Não estão errados vide que é difícil gostar daquilo que não se entende, pois as mudanças de gerações trazem concomitamente a quebra de diversos paradigmas. Foi de tal maneira, com certo agravamento, no século XIX, é na atualidade, e assim provavelmente será no futuro. Portanto, ser refém de valores ultrapassados é algo intrínseco ao ser humano.

Tendo em vista o século da burguesia, mais especificamente na época do ultrarromantismo, nota-se claramente o quão as mudanças drásticas tanto de regime quanto do comércio afetaram as sociedades. O saudosismo e a fuga do presente são evidentes. Consequentemente muitas pessoas não conseguiram se adaptar ao novo modelo, acreditavam veementemente estarem perdidos e que as gerações passadas eram compostas apenas de glórias. Reféns do passado.

Contudo, até que ponto esse saudosismo atinge? Baseando-se no senso comum, não há motivos para se sentir nostálgico em relação a uma sociedade censurada, perseguida, torturada e limitada. Todavia, esse é o cenário da atualidade brasileira cuja considerável parcela da população clama pelo retorno de parte da segunda metade do século passado. Sem titubeação afirmam ter sido uma época de melhores valores e muitas vezes negam (ou ignoram) todo o sofrimento causado pela ditadura. Reféns do passado.

Aparentemente sim, todas as gerações humanas estão amarradas a valores passados. Mas encontra-se na obra de "1984", de George Orwell, uma sociedade futurística que concorda, sem nenhum problema, com sua contemporaneidade. Infelizmente, isso não ocorre por serem perfeitamente satisfeitos, e sim porque o passado não existe, é constantemente modificado. Logo é necessário um exemplo fictício para demonstrar uma sociedade que não seja refém do passado, apesar de ser no presente.

Em suma, estar preso a valores passados é normal, acontece há séculos. Para ser totalmente desapegado, requer uma distopia em que a história é inexistente. O diferente é o novo, o jovem encontra dificuldades em ser compreendido, precisa "lutar" para quebrar paradigmas e conquistar seu espaço, com suas ideologias, em um mar de ideias preconcebidas. É um ciclo natural de qualquer sociedade, tendo em vista que o mundo está em constante mudança, logo, os valores também.

Rodrigo Cervi
Criar Franca