Edificadores vs. derrubadores de muros

Dizem que somos uma sociedade edificadora de muros, que veste impreterivelmente suas viseiras antes de sair de casa e enxerga apenas o que se encaixa em nosso campo de interesses sem alcançar nossas limitações. Frente a essa caracterização, é possível, certamente, identificar grande parte dos indivíduos que, nos dias de hoje, buscam cercar-se daqueles que afirmam ser seus semelhantes. Contudo, já existe, mesmo que sejam minoria, os que veem além dos muros da segregação e compreendem como semelhantes não apenas os detentores de contas bancárias exorbitantes. Assim, mesmo que a invisibilidade social assuma o papel de protagonista em nossa sociedade, esse cenário encontra-se potencialmente ameaçado.

A moradora de rua, o lixeiro, a doméstica, o frentista, a criança que não tem o que comer acompanhada do adulto, que passa um frio inimaginável são algumas das várias personagens que compõem o espectro dos invisíveis, inexistentes, irrelevantes para aqueles que enxergam no dinheiro que carregam o direito de não enxergar os que carecem de carros e casas de luxo. Com isso, um “bom dia”, “obrigado” ou até mesmo um “por favor” ainda mostram-se, muitas vezes, regulados pelos status do indivíduo, o que justifica a recorrente reafirmação dos muros de segregação social.

A outra face que compõe a sociedade brasileira atual possui expressão limitada diante dos milhares de edificadores de barreiras. Entretanto, o ideário de uma real coexistência entre os dois mundos em que uma visão de igualdade, independente de renda ou profissão prevaleça, ganha aos poucos maior visibilidade e potencializa-se como uma intimidação aos defensores da segregação. Dessa forma, aqueles que não se mostram indiferentes aos outros, oferecendo cores vibrantes para que retoquem suas imagens e deixem de ser invisíveis, plantam uma semente que, ao dar frutos, pouco a pouco, faz do país um lugar com menos divisórias.

Os poucos reconhecidos e domados derrubadores de barreiras são os nossos heróis de uma história que envolve a luta pela visibilidade de muitos que passam dias, meses e anos ocultos pelo muro da segregação. Contudo, a história está mudando seus eixos e essa mostra indícios de que, em um futuro próximo, os heróis dos dias de hoje serão simplesmente pessoas ordinárias e os ordinários que conhecemos atualmente e que ainda garantem a invisibilidade de muitos tornar-se-ão os vilões de uma narrativa que possui como desfecho um país em que todos são dotados de cores vibrantes e, assim, ninguém passará mais despercebido.

Luisa Sarti
Criar Campinas