Máquina quebrada

A construção da civilização contemporânea pautou-se em uma sequência de mudanças profundas na relação homem com a natureza. Entretanto, apesar da bússola positivista que orienta o progresso industrial, a modernidade concretizou-se como deflagradora de turbulências com custos sociais relevantes e repletos de pessimismo. Nesse paradigma, os problemas ambientais atuais podem ser compreendidos como sintomas de patologia desenvolvimentista, cujo limite parece ser a racionalidade humana.

O adoecimento do ecossistema é registrado desde a Grécia Antiga com relatos de poluição, no entanto ele se tornou mais proeminente na Idade Moderna. A partir de então, o meio ambiente adquiriu as proporções de uma máquina, cujos movimentos poderiam ser entendidos e até mesmo controlados pelo homem. Essa visão objetiva, influenciada pela filosofia de Comte, ameaçou a capacidade de resiliência do maquinário, que já apresentava falhas, e doutrinou a espécie humana como protagonista da história.

Portanto, desde os primórdios da Revolução Industrial já estava traçada a enfermidade do Planeta. A máxima que foi estabelecida de “dominar a natureza” partiu da premissa equivocada de que o homem é um ser externo à paisagem e que esta evolui independente da ação dele. Esse pensamento foi responsável por cristalizar o estilo cotidiano insustentável e determinar a perspectiva de uma infindável crise ecológica, percebida nos 2,2 milhões de quilômetros quadrados de floresta perdida. O limite da depredação está em rebaixar o ser racional ao instinto da sobrevivência, uma vez que o agravamento dos sintomas torna o animal refém de seu habitat. Preso em um estado de impotência, ele personifica Fabiano de Graciliano Ramos, resignado frente à vida seca irreversível.

O prognóstico da patologia que acomete o corpo social é a inversão da interação de dependência, ou seja, o meio ambiente passaria a instrumento de controle social e provocaria a ressignificação da adaptação do homem. Para revertê-lo, é necessário o fortalecimento da pauta ecológica no âmbito político e cultural. A promoção de assembleias por instituições não governamentais é essencial para desarticular o progresso desordenado que submete os recursos naturais à lógica massiva de produção por meio de discussões que fomentem a atenção para a importância da reverberação desses setores. A mudança, no entanto, depende da formação de uma juventude consciente da interação sustentável a partir da inclusão, pelo poder público, da educação ambiental como matéria obrigatória desde o fundamental.

Marina Guitti de Souza
Criar Campinas