Assim como "Til"

Em Til, de José de Alencar, o menino Brás é visto pelas personagens, exceto por Berta, como, nas palavras do narrador, um estranho aborto da natureza. Dois séculos se passaram desde a publicação da obra e muito mudou na sociedade brasileira, a qual passou, teoricamente, incluir e respeitar o cidadão deficiente. Entretanto, na prática, esse é visto, desde sua família até o governo com olhos de repulsa, cautela e preconceito.

Quando se tem um membro da família com alguma limitação, é utópico afirmar que a vida da família seguirá normalmente. Serão necessárias diversas adaptações para atender às necessidades do indivíduo. Todavia, a maioria dos pais, por falta de conhecimento, preparo ou medo de expor o filho, tão frágil aos perigos do mundo, acabam o super protegendo e, dessa forma, potencializando, artificialmente, as limitações naturais do deficiente.

Nos âmbitos educacional e social não é diferente. As escolas, em sua grande maioria, tendem a segregar os alunos com deficiência, seja reunindo-o em uma sala para “alunos especiais” ou excluindo-os das atividades e brincadeiras em grupo. Na esfera social, cidadão comum cujo contato com deficientes é mínimo (devido às barreiras construídas pela família e escola) cria certo preconceito e repulsa a esses indivíduos, atenuando ainda mais a exclusão.

O governo brasileiro, por sua vez, mostra-se precário e ineficiente quando se trata da inclusão dos deficientes na sociedade. As poucas políticas existentes, como a contratação obrigatória de indivíduos portadores de necessidades especiais, muitas vezes são burladas ou ignoradas, não havendo controle por parte do Estado. Além disso, as obras de acessibilidade para deficientes físicos são insuficientes e as existentes apresentam condições precárias, muitas até sem condições de uso.

Dessa forma, a se juntar as quatro esferas: familiar, escolar, social e governamental se tem uma sociedade excludente, preconceituosa e limitadora. Sendo assim, a solução não se limita apenas a uma delas, mas deve envolver as quatro: o governo deve reforçar as políticas de inclusão e acrescentar cursos preparatórios para pais e professores que, por sua vez, devem aprender, com auxílio dos cursos, a não construir uma barreira em torno do deficiente e, sim, tentar ao máximo incentivar a socialização. Como conseqüência, a sociedade passará assim como Til, incluir e respeitar os inúmeros “Bráses” existentes na sociedade brasileira.

Barbara Ropoli Bernardino
Criar Campinas